Ao lado de Lars Von Trier e dos Irmãos Dardenne, o austríaco Michael Haneke é um dos cineastas mais polêmicos da atualidade. Obcecado pelas neuroses e sociopatias contemporâneas, seu cinema-limite aposta em narrativas densas e enredos mórbidos, sem finais felizes.
Fascinado pelos demônios da mente humana, Haneke estudou Filosofia e Psicologia na Universidade de Viena, antes mesmo de seduzir-se pelo cinema, embora muito influenciado pelo gosto artístico da família: a mãe era atriz e o pai diretor. Debutou-se inicialmente no teatro, como dramaturgo e, em seguida, foi trabalhar na televisão alemã como diretor, editor e roteirista. Sua estréia na direção deu-se em 1973 com o experimento After Liverpool, mas seu primeiro longa-metragem de fato foi O Sétimo Continente (1988), filme depressivo sobre uma família que comete suicídio. As produções seguintes foram aos poucos reiterando seu cinema sádico e voyeurístico: O Vídeo de Benny (1992), 71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso (1994) e principalmente Violência Gratuita (1997) – que alcançou repercussão no circuito indie e até nos blockbusters depois que foi refilmado em 2008, nos Estados Unidos, pelo próprio Haneke, com elenco formado por Naomi Watts, Tim Roth e Michael Pitt.
Funny Games, título original de Violência Gratuita, logo se tornou cult por tratar da violência simbólica/física sem ser sanguinolento ou vazio, embora o titulo brasileiro trouxesse certa alusão a isso. O absurdo (e a tese do filme) aparece quando um dos personagens questiona o sadismo do espectador ao retroceder o próprio filme com um controle remoto apontado para a tela. Mais coeso foi Código Desconhecido (2000), ensaio sobre a alteridade e os códigos que regem as relações sociais num mundo moralista, xenófobo e individualista. A cena inicial com Juliette Binoche deflagrando uma situação ‘normal’ que explode em violência é uma das melhores. Em 2003 Haneke fez Tempos de Lobo: Isabelle Huppert e Olivier Gourmet formam um casal de férias no campo que, junto aos filhos, são torturados por uma outra família que já está no local. Novamente, o inferno se instala.
Embora com uma pequena filmografia autoral de mérito nos anos noventa, o reconhecimento de Haneke no cinema mainstream deu-se mesmo com A Professora de Piano (2001), adaptação do romance de Elfriede Jelineck, escritora premiada com o Nobel de Literatura. Os protagonistas Isabelle Huppert e Benoit Magimel ganharam o prêmio de melhor atriz/ator no Festival de Cannes daquele ano. Huppert vive uma professora clássica, altiva e elegantemente fria em sua postura esguia e olhar compenetrado. Apaixonado por um estudante exemplar, ela busca através do sadismo a redenção para o frisson erótico da paixão. Passa a vivenciar situações de risco: freqüenta cabines peep show, espia casais em drive-in, compra revistas e artifícios eróticos em sex shops, mutila-se no banheiro e, vez em quando, mantém uma relação doentia e erotizada com a mãe. Logo seu jogo de fetiches revela-se um jogo de poder onde a perversão volta-se contra ela, machucando-se até a cena final, uma das mais cruéis e solitárias do cinema moderno.
Com menor impacto das imagens, porém com maior elaboração textual, Haneke fez, em 2005, Caché. No elenco, Binoche e Daniel Auteuil protagonizam um casal de intelectuais que tem o cotidiano abalado por estranhas fitas de vídeo deixadas em frente à casa onde moram. Outro filme que discute o status da imagem, o quão ela é verdadeira ou fictícia e como ela pode ser manipulada.
Em maio de 2009, Haneke foi aclamado em Cannes com a Palma de Ouro de melhor filme por A Fita Branca, seu trabalho mais complexo em termos estéticos e ideológicos. Com fotografia P/B, o longa versa sobre as raízes do mal numa aldeia alemã às vésperas da I Guerra Mundial onde o mais sinistro ocorre: tortura, suicídio, devastação moral e crimes – e tudo sob a ótica das crianças - o que nos leva a desconfiar da suposta ‘inocência’ delas. E também de todos. Pois para Haneke o ovo da serpente está em todo lugar, camuflado nos detalhes, muito além das boas aparências e dos prazeres efêmeros.
3 comentários:
Este cara tem uma filmografia para ser assistida por um público cult e seleto.
Funny Games,a versão original é melhor do que a com Tim Roth e Naomi Watts.
'A Fita Branca' é excelente. Fotografia espetacular e um enredo lento que hipnotizou completamente!
Sua obra é entorpecente.
Abs,
Rodrigo
Ótima matéria, parabéns! Haneke é fantástico! Assisti O primeiro filme dele que assisti foi A Pianista, e me tornei fã imediatamente! Em seguida vieram Benny`s Video, A Fita Branca, O Castelo, Caché e Funny Games! Pra mim é um dos melhores da atualidade!
Estou me formando em Psicologia, e no meio do curso de Filosofia. Ao mesmo tempo estou iniciando minha carreira literária e me inspiro muito na obra e na figura do Haneke!
Te convido pra conhecer meu blog de cinema, o Câmera Viva!
Parabéns pelo seu, está excelente, muito bem escrito!
Abraço,
Daniel
http://cameraviva.wordpress.com
Obrigado, Daniel. Já visitei seu blog e gostei dos ensaios. Já vi aqueles filmes. Ótima pesquisa a sua. Depois publique algo sobre ela, gostaria de ler. Abraço!
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