Mesmo discretamente, o cinema assumiu-se gay desde cedo. Já em 1898, uma breve sugestão homoerótica aparecia em The Gay Brothers, de Thomas Edison, onde dois homens dançavam uma intimista valsa. Em 1916, Charlie Chaplin também revelava um inusitado beijo gay em Behind The Screen. Neste primeiro cinema as insinuações eram poucas, mas existiam. Inclusive os stag films (pornográficos primitivos) evidenciavam o homoerotismo de modo explícito em produções francesas como L’ heure Du thé (1925) e Le ménage moderne du Madame Butterfly (1920).No cinema mainstream, o primeiro filme a abordar a temática gay foi o alemão Diferente dos Outros (Anders als die Andern, 1919), de Richard Oswald. Sem finais felizes, esses filmes e os que viriam a seguir - como Mulheres de Uniforme (Mädchen in Uniform, 1931) - abordaram o desejo homossexual sob a égide da tragédia e da repressão. Evidente que as leis de censura cooperaram para isso: o Parágrafo 175 do Código Penal alemão criminalizava a homossexualidade; e o Código Hayes, nos EUA, impedia a produção e a exibição de cenas sexuais de 1930 até 1968.
No underground, desde os anos cinqüenta, cineastas como Kenneth Anger, Jean Genet, Paul Morrissey e Andy Warhol projetaram imagens sensuais sob a perspectiva homoerótica do êxtase. Mesmo experimentais, seus filmes estilizaram o sexo e acabaram por influenciar toda uma geração de cineastas como Derek Jarman, Pier Paolo Pasolini, Fassbinder, John Waters, Pedro Almodóvar, entre outros.
Aos poucos, a homossexualidade foi saindo do armário através de tramas que retratavam temas transversais à identidade de gênero, como as relações amorosas e políticas. Almodóvar, que celebrou o desejo de modo visceral em seus primeiros filmes, como Labirinto de Paixões (Espanha, 1982) e A Lei do desejo (1987), questionou a expressão “cinema gay”: Os filmes não têm qualquer tipo de sexualidade – afirmou. Depois de Querelle (Alemanha/França, 1982), de Fassbinder, e Making Love (EUA, 1982), de Arthur Hiller, “o amor que não ousa dizer seu nome” revelou-se intensamente nas telas. Esta produção fílmica "temática" revelou-se diversificada, em vários países, e muitas vezes distante dos rótulos do próprio universo gay.
No cinema francês, por exemplo, de François Ozon a Christophe Honoré, ou mesmo no aclamado norte-americano O segredo de Brokeback Mountain (EUA/Canadá, 2005), de Ang Lee, a homossexualidade mostrou-se intensa e melancólica. Em Bruce LaBruce, os zumbis assumiram-se gays e indies entre vísceras e morbidez. Milk (EUA, 2008), de Gus Van Sant, e Bent (Inglaterra, 1997), de Sean Mathias, tornaram o desejo um ato político. Cruising (1980) e Plata Quemada (Argentina, 2000) fizeram a libido explodir em violência. A busca do amor terminou em solidão em O fantasma (Portugal, 2000), de João Pedro Rodrigues. Em Shortbus (EUA, 2004), de John Cameron Mitchell, as sexualidades cruzaram-se numa luta contra o vazio existencial. Por fim, a transsexualidade e temáticas afins apareceram em Hedwig (EUA, 2001), Transamérica (EUA, 2005) e XXY (Argentina, 2005).
No cinema nacional, a partir dos anos 90, o personagem homossexual livrou-se um pouco do estigma estereotipado (associado à piada) das (porno)chanchadas. Maior exemplo é o atual Do começo ao fim (2009), de José Aluízio Abrantes, filme sobre a relação amorosa entre dois meio-irmãos. Insosso diante do tabu, o filme parece sessão da tarde, não provoca reação alguma. Sem clímax ou complexidade dramática: uma verdadeira novela.
Embora filmes recentes tenham sofrido restrições em festivais de cinema europeus, como os cultmovies L.A.Zombie (Canadá, 2010), de LaBruce, e Homem ao Banho (França, 2010), de Honoré, o cinema queer já manifesta-se sem medo. A exceção é nos países islâmicos, que criminalizam a homossexualidade - embora o Egito tenha produzido recentemente um primeiro filme (ainda reprimido) sobre a sedução gay. No cinema ocidental, incluindo o israelense, temos beijos, afetos e sexo homossexual à vontade. A pornografia tornou-se mais expansiva e alia-se ao melodrama para estilizar o sexo em filmes como Hot Men Cool Boys, produzido por Lars von Trier, e Dirty Diaries, da feminista Erica Lust. Bons documentários (The Celluloid Closet, Fabulous! A História do cinema gay) investem na temática mostrado o lado B do mainstream. Por fim, consolidam-se os Festivais Internacionais de Cinema em edições cada vez mais lotadas.
A homossexualidade já não é mais tabu no cinema, mas ainda carece - como notou o escritor brasileiro Luiz Nazario - de representações mais livres de normatizações forjadas em séculos de repressão. As representações do desejo permanecem presas às sexualidades socialmente modeladas. Não criam fantasias libertas dessa modelagem nem subvertem de fato as convenções sexuais. De todo modo, gradualmente, este desejo vai reafirmando seu nome nas telas.
Artigo originalmente publicado na Revista Com'Out, Portugal, Lisboa, n°10, ano 3, Outubro/2010, p.75.
Aos poucos, a homossexualidade foi saindo do armário através de tramas que retratavam temas transversais à identidade de gênero, como as relações amorosas e políticas. Almodóvar, que celebrou o desejo de modo visceral em seus primeiros filmes, como Labirinto de Paixões (Espanha, 1982) e A Lei do desejo (1987), questionou a expressão “cinema gay”: Os filmes não têm qualquer tipo de sexualidade – afirmou. Depois de Querelle (Alemanha/França, 1982), de Fassbinder, e Making Love (EUA, 1982), de Arthur Hiller, “o amor que não ousa dizer seu nome” revelou-se intensamente nas telas. Esta produção fílmica "temática" revelou-se diversificada, em vários países, e muitas vezes distante dos rótulos do próprio universo gay.No cinema francês, por exemplo, de François Ozon a Christophe Honoré, ou mesmo no aclamado norte-americano O segredo de Brokeback Mountain (EUA/Canadá, 2005), de Ang Lee, a homossexualidade mostrou-se intensa e melancólica. Em Bruce LaBruce, os zumbis assumiram-se gays e indies entre vísceras e morbidez. Milk (EUA, 2008), de Gus Van Sant, e Bent (Inglaterra, 1997), de Sean Mathias, tornaram o desejo um ato político. Cruising (1980) e Plata Quemada (Argentina, 2000) fizeram a libido explodir em violência. A busca do amor terminou em solidão em O fantasma (Portugal, 2000), de João Pedro Rodrigues. Em Shortbus (EUA, 2004), de John Cameron Mitchell, as sexualidades cruzaram-se numa luta contra o vazio existencial. Por fim, a transsexualidade e temáticas afins apareceram em Hedwig (EUA, 2001), Transamérica (EUA, 2005) e XXY (Argentina, 2005).
No cinema nacional, a partir dos anos 90, o personagem homossexual livrou-se um pouco do estigma estereotipado (associado à piada) das (porno)chanchadas. Maior exemplo é o atual Do começo ao fim (2009), de José Aluízio Abrantes, filme sobre a relação amorosa entre dois meio-irmãos. Insosso diante do tabu, o filme parece sessão da tarde, não provoca reação alguma. Sem clímax ou complexidade dramática: uma verdadeira novela.Embora filmes recentes tenham sofrido restrições em festivais de cinema europeus, como os cultmovies L.A.Zombie (Canadá, 2010), de LaBruce, e Homem ao Banho (França, 2010), de Honoré, o cinema queer já manifesta-se sem medo. A exceção é nos países islâmicos, que criminalizam a homossexualidade - embora o Egito tenha produzido recentemente um primeiro filme (ainda reprimido) sobre a sedução gay. No cinema ocidental, incluindo o israelense, temos beijos, afetos e sexo homossexual à vontade. A pornografia tornou-se mais expansiva e alia-se ao melodrama para estilizar o sexo em filmes como Hot Men Cool Boys, produzido por Lars von Trier, e Dirty Diaries, da feminista Erica Lust. Bons documentários (The Celluloid Closet, Fabulous! A História do cinema gay) investem na temática mostrado o lado B do mainstream. Por fim, consolidam-se os Festivais Internacionais de Cinema em edições cada vez mais lotadas.
A homossexualidade já não é mais tabu no cinema, mas ainda carece - como notou o escritor brasileiro Luiz Nazario - de representações mais livres de normatizações forjadas em séculos de repressão. As representações do desejo permanecem presas às sexualidades socialmente modeladas. Não criam fantasias libertas dessa modelagem nem subvertem de fato as convenções sexuais. De todo modo, gradualmente, este desejo vai reafirmando seu nome nas telas.Artigo originalmente publicado na Revista Com'Out, Portugal, Lisboa, n°10, ano 3, Outubro/2010, p.75.
2 comentários:
E o clássico Satyricon, de Fellini. Adaptação da grande obra de Petronius.
Ótimo texto, Rodrigo.
Vc fez um breve panorama do cinema que usa a temática gay como pressuposto para discutir amor, dor, erotismo e outras sensações.
Passou pelos principais expoentes e alguns dos disseminadores.
É curioso notar que em mais de 100 anos de história e cerca de meio século do que podemos chamar de uma liberdade menos velada, poucos filmes consigam grande projeção.
"Do começo ao fim", mesmo fraco como é, trazia beldades em seu cartaz, além de globais não apenas no elenco, mas também na produção. Nem assim foi pra frente.
O maior parte das produções "queer" ainda se restringem a uma distribuição pífia, ficando relegadas a um circuito ultra-alternativo.
Resta-nos a internet pra ver, debater e espalhar as ideias desses diretores.
Grande abraço.
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