04/06/2011

SEXO E MELANCOLIA EM SHORTBUS

Não se trata de pornografia. É uma comédia com sexo real ao vivo acontecendo diante da câmera. Tirei o ar de erotismo do filme para ver o que havia por trás, emocionalmente.
John Cameron Mitchell, diretor de Shortbus

Por Rodrigo Gerace ©

Como projetar uma visão liberal das sexualidades contemporâneas após o temor da AIDS e da expansão dos fundamentalismos religiosos castradores? Como explorar o desejo sexual de modo hedônico e bem humorado? Como retomar a contracultura sexual num contexto de terror atual? Em certo momento, um personagem de Shortbus responde a estas questões, dentro de um clube de sexo livre: “É como nos anos 60, mas com menos esperança”. Foi esta a tese que o diretor John Cameron Mitchell pretendeu traçar em The Sex Film Project (“projeto para um filme de sexo”), título inicial de Shortbus, quando Mitchell ainda pesquisava a retomada do erotismo cinematográfico após o fantasma da AIDS, na ocasião do lançamento de seu primeiro longa-metragem Hedwig: Rock, Amor e Traição (2001).

Hedwig era uma roqueira, interpretada pelo próprio diretor, nascida homem mas que fizera mudança de sexo para se casar com um recruta. O filme trazia androgenia e anarquia em estilo glam rock, estética kitsch, com certo saudosismo da sexualidade liberada dos filmes dos anos 60 e 70. Mitchell procura subverter a representação mainstream do sexo através dos filmes, como no cinema anti-romântico de Catherine Breillat, que traz uma visão sinistra do desejo, desprovida de humor e introjetada de valores conservadores cristãos e culturais. Ele mesmo afirma que seu cinema tem um ranço de religiosidade, reflexo do puritanismo norte-americano e de sua família.

Nascido no Texas, em 1963, Mitchell foi criado em meio aos valores católicos, militares e artísticos. Sua mãe era artista e professora em Glasgow, o pai era um general do exército dos EUA que trabalhava em Berlim. Na infância, estudou em colégio religioso, os Beneditinos, e viajou bastante com os pais em bases privilegiadas do exército, nos Estados Unidos, Alemanha e Escócia. Com referências religiosas, militares e artísticas, as contradições relativas à sexualidade apareceram. Desde cedo ouvia que quem era homossexual iria para o inferno. E não só sua homossexualidade era maldita, sua imaginação pornográfica também: “Cresci em um ambiente religioso, militar, aberto para a arte, mas tenso quanto ao sexo”. “Toda vez que você se masturba, Deus mata um gatinho”, diziam covardemente a ele.

O retrato sexual pós-Aids aportou em Shortbus, mas já não subversivo nem adequado ao sistema social, como nos anos sessenta e setenta. Embora bem humorado e livre de culpa, o sexo aparece como última tentativa de afeto, de preenchimento do vazio existencial, muito motivado pela fragmentação da anomia social pós-11 de setembro. Aparentemente o filme clama ao hedonismo, para uma abordagem erótica da vida, mas por fim prova que o erotismo cedeu espaço para o terror contemporâneo: a libido erótica (Eros) foi massacrada pela civilização, o ato sexual proporciona prazer, mas um prazer rarefeito, só na aparência, na carne; os personagens angustiam-se de solidão e desprazer pós-sexo, choram, ficam neuróticos. De fato, como classificou Mitchell, o sexo no filme é físico, embora também traga metáforas de poder e do estado emocional dos personagens:
Quis mostrar as personagens através do sexo que praticam. Por exemplo, quando coloco o casal central fazendo amor daquela maneira tão acrobática, estou querendo mostrar que há algo de errado ali na relação. Há também aquele homem que está tentando desesperadamente colocar seu pênis na boca. A idéia é levar o público a fazer a questionar: “O que se passa com este personagem?”. Todo aquele sexo pode valer como metáforas sobre diversas partes da nossa vida. No meu cinema não faço juízos de valor sobre as personagens. (John Cameron Mitchell)
O cineasta canadense Gus Van Sant percebeu o clamor das sexualidades no filme de Mitchell:
Shortbus é um caso bem interessante, pois há algo de muito gay no filme, embora, ao mesmo tempo, seja um filme de todos, para todos, com uma qualidade pansexual bastante incomum. Essencialmente, é sobre sexo, mas parece focar nas coisas boas do sexo, o sexo pode ser algo bem positivo e isso nós muitas vezes esquecemos. Sexo é freqüentemente associado a perversões, niilismo, ciúme, é geralmente a fonte de todos os problemas num filme. Em histórias de amor, é normalmente a fonte, muito embora o sexo seja quase sempre deixado de fora dessas histórias de amor. No filme de John Cameron Mitchell, é difícil até mesmo dissecar aquilo tudo, mas há uma sensação de prazer ao final de tudo. (Gus Van Sant)
Para a estilização do tom sexual melancólico, Mitchell partiu de algumas influências: Un Chant d’amour (1950), de Genet, sobre dois amantes encarcerados por uma parede; os experimntos visuais de Andy Warhol e Paul Morrissey; os primeiros filmes de Almodóvar, como Pepi Luci y Bon; e o drama Taxi zum Klo (Alemanha, 1980), de Frank Ripploh, um retrato sexual da intimidade de um professor primário, o próprio diretor em cena, pelo submundo de Berlim. Cenas explícitas de sexo gay são exploradas visualmente pelos detalhes afetivos e eróticos do ato sexual. Contudo, o sexo não se restringe apenas ao falo nem é carregado de culpa, como nos filmes de Breillat. Os personagens gozam no sexo, assim como gozam da vida hedonista. Tal como Shortbus, este filme alemão, um dos pioneiros quanto ao retrato explícito da variedade do sexo homossexual, trouxe personagens que documentam seus desejos sexuais, vivem a si mesmos (ator e personagem), entregam-se ao ato físico como uma confissão sobre o sexo. Embora com roteiro simplório, sem muito clímax, Taxi zum Klo chega ao ápice da intimidade ao deflagrar em close up, no final, o diretor em uma cama médica fazendo exame urológico - chega a ser constrangedor.

A trama de Shortbus apresenta um mosaico de situações que envolvem personagens em crise afetiva e sexual: um casal gay (Dawson e PJ DeBoy, namorados na vida real) envolve um terceiro elemento (o cantor Jay Brannan) na relação como possibilidade de “renovação” da fadada relação; uma terapeuta sexual frígida (Sook-Yin Lee, apresentadora de TV canadense) busca o orgasmo em um clube do sexo para resolver a intimidade com o marido (Raphael Barker); uma dominatrix conselheira sexual (Lindsay Beamish) tenta se livrar da melancolia após o sexo; um ex-prefeito de Nova York trafega pelo submundo gay para explorar a sua homossexualidade; um solitário voyeur (Peter Stickles), parasita as emoções alheias com um grande binóculo da janela de seu apartamento.

O local que os une se chama Shortbus, clube privado em Nova York regado à poesia, música, política e sexo coletivo. Nele, as sexualidades assumem-se e entram em erupção de modo explícito: homossexualidade, lesbianismo, onanismo, masturbação, autofelação, ménage à trois, sexo grupal – tudo estilizado à maneira pop art, com trilha sonora jazz e glam rock, e situações eróticas cômicas. A cidade por onde transitam é a Nova York após o atentado de 11 de setembro de 2001, que, na ótica do filme, abalou a rotina sexual da cidade. “Foi um momento muito intenso, íntimo e sexual ao mesmo tempo. Era como encarar a própria morte, ver que sexo e mortalidade estão muito ligados” – diz o ator Paul Dawson, que interpretou James, ao lado de seu real namorado, Jamie, o ator PJ DeBoy. Os atores escolheram seus nomes e ajudaram a determinar seus conflitos que, se já não são assombrados pela Aids, não deixam de conviver com outro fantasma: o 11 de Setembro. O atentado está presente no longa, seja insinuado na "forma" dos piques de luz e eventual blecaute que acontecem no filme. Ou na tristeza, vazio e solidão que levam seus personagens a freqüentar o Shortbus, misto de clube de sexo e cabaré, que "lembra os anos 60, só que com menos esperança", como observa Justin Bond, famosa drag queen nova-iorquina que faz ponta no filme.

Shortbus teve como mote inicial um anúncio feito por Mitchell numa página na internet, no ano de 2003, no qual pedia aos participantes gravações em vídeo com relatos sobre experiências sexuais que focassem o lado emocional. O site teve meio milhão de acessos e recebeu cerca de 500 vídeos, grande parte de norte-americanos. Geralmente relatavam fatos diretamente para a câmera ou faziam curtas-metragens sexuais. Teve quem entoou canções de amor e até se masturbou para conseguir o papel. “Chegamos inicialmente a um grupo de 40 pessoas interessantes, inteligentes, distintas e sexy. Pensamos na compatibilidade sexual e fechamos em nove pessoas antes mesmo de termos uma trama. Eu sabia apenas que o filme se passaria em Nova York, que envolveria sexo com casais distintos. Fizemos oficinas um pouco como Mike Leigh, e a partir das improvisações eu fiz o roteiro. Ensaiamos, e eu reescrevi o roteiro por mais de dois anos antes de filmar” - diz Mitchell.

Para a triagem dos quarenta finalistas, a produção organizou uma festa chamada de Shortbus, com música, pista de dança e bebida à vontade. Foram contratados casais disfarçados que se beijavam durante a festa e criavam assim um clima de desinibição para o entrosamento dos finalistas. Nesta noite tudo foi filmado. Diante das gravações, entrevistas, depoimentos e exercícios de improvisação, Mitchell escolheu nove personagens, que adentraram na ficção, mas também viveram a si mesmos, com os próprios nomes e situações semelhantes às da vida real, como Dawson e DeBoy que são casados.

Para o realismo diegético das cenas de sexo explícito, houve alguns critérios: improvisação do roteiro, oficinas com o elenco e com a equipe, e até uso de medicamentos para manter a ereção. “Os atores aprovaram tudo o que fariam e estabeleceram suas próprias metas emocionais. Tiveram coragem. Alguns quiseram ensaiar as cenas, outros tomaram Viagra. Escutei as necessidades de cada um. Foi muito íntimo. Uma espécie de tratamento em grupo que nos uniu para a vida inteira”, declarou Mitchell (foto abaixo). “Em uma cena, tinha que ficar nua e travei. Não conseguia tirar a roupa de jeito nenhum, então pedi que ligassem o som no último e que todo mundo no set ficasse pelado, para me ajudar a entrar no clima” – declarou Sook-Yin Lee. “Não entendo por que ter um orgasmo em cena é tão diferente de chorar diante da câmera. As duas coisas exigem que se traga à superfície algo muito íntimo ” – declarou Dawson, que, segundo afirma, teve um orgasmo "real" em cena.

Embora acusado de pornográfico pela mídia, Mitchell discorda que o filme seja do gênero, pois a representação do desejo sexual por meio do sexo explícito foi utilizado como metáfora para revelar a personalidade e motivações emocionais dos personagens: “Um filme que não necessariamente pretendem ser erótico, mas sim tentar usar a linguagem da sexualidade como uma metáfora para outros aspectos dos personagens. Eu sempre pensei a sexualidade como terminações nervosas da vida das pessoas”.
O sexo aparece integrado às vidas dos personagens. Queria usá-lo como a música em Hedwig - Rock, Amor e Traição, uma metáfora para revelar os personagens sem usar palavras. Por isso não se pode comparar Shortbus a um filme pornográfico. Poucas pessoas se excitam sexualmente ao vê-lo, e, quando isso acontece, é algo periférico. A idéia não é chocar ou excitar. Quando ele termina, a última coisa em que se pensa é no sexo. Como no fim de uma relação boa. Diferente do que se sente após ficar apenas uma noite com alguém. (John Cameron Mitchell)
Nesta perspectiva é que o sexo refletiu o aspecto emotivo dos personagens, seu lado explícito, inconsciente. É como se no clube Shortbus não houvesse repressão ou culpabilidade sexual, nada é sublimado, implícito. Lá, os personagens são transparentes com seus desejos e sentimentos, sendo tudo isso representado em cena explícita com sintoma de “verdade”. Shortbus revelou, por um lado, a liberdade vigente nas sociedades ocidentais e, por outro, o vazio existencial e a banalização da vida que essa liberdade pode gerar no plano emocional e do consumo, numa época carregada de vulgarização do desejo, voyeurismo saturado em reality shows e moralismo que estimula, mas também condena, o desejo sexual. Hoje, a liberação sexual não suscita necessariamente liberação social e política: o imperativo do gozo é uma obrigação social, uma alienação do desejo.

1 comentários:

S. Rossini disse...

Direto, cru e sincero. Filme excelente que faço todos meus amigos assistirem. A contradição da terapeuta sexual que nunca teve orgasmo é demais.