29/12/2012

█████ OS MELHORES FILMES DE 2012


























CINEMA ESTRANGEIRO

1. Fausto (Aleksandr Sokurov)
2. Holy Motors (Leos Carax)
3. Amour (Michael Haneke)
4. Em Nome de Deus (Brillante Mendoza)
5. Cosmópolis (David Cronenberg)
6. Um Alguém Apaixonado (Abbas Kiarostami)
7. As Praias de Agnès (Agnès Varda)
8. O artista (Michel Hazanavicius)
9. Frankenweenie (Tim Burton)
10. A Invenção de Hugo Cabret (Martin Scorcese)


CINEMA NACIONAL

1. O som ao redor (Kleber Mendonça Filho)
2. Era uma Vez Eu, Verônica (Marcelo Gomes)
3. Febre do Rato (Cláudio Assis)
4. A Música Segundo Tom Jobim (Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim)
5. Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios (Beto Brant e Renato Ciasca)
6. Tropicália (Marcelo Machado)
7. Raul Seixas, o Início, o Fim e o Meio (Walter Carvalho)
8. Uma Longa Viagem (Lúcia Murat)
9. Vou Rifar meu Coração (Ana Rieper)
10. Xingu (Cao Hamburger)


12/12/2012

O cinema de Antonioni (1912-2007)



Logo após o anúncio da morte de Ingmar Bergman foi noticiada a do cineasta italiano Michelangelo Antonioni, falecido no mesmo dia 30 de julho de 2007, apenas algumas horas mais tarde, aos 94 anos de idade. Com Antonioni desaparece não só um dos nossos maiores diretores, mas também um mestre do cinema moderno. Graças a ele chegaram à grande tela as problemáticas mais duras do mundo contemporâneo, como a falta de comunicação e a angústia, declarou Walter Veltroni, prefeito de Roma, no calor da emoção, sem levar em conta os filmes de um Bresson, de um Bergman, ou mesmo de Von Trier. Antonioni era considerado um cineasta intelectual: além dos trinta filmes produzidos, entre longas e curtas-metragens, dedicou-se à pintura e publicou um livro de idéias de filmes não realizados, That Bowling Alley on the Tiber. Um dos projetos do livro serviu de inspiração para o filme Além das Nuvens, dirigido em parceria com o cineasta alemão Wim Wenders, em 1995.


Filho de uma família da classe média italiana, Antonioni nasceu em Ferrara a 29 de setembro de 1912. Quando jovem, graduou-se em economia pela Universidade de Bolonha, ao mesmo tempo em que o fascínio pelo cinema o desviava das preocupações econômicas mundiais, levando-o ao trabalho como crítico num jornal local. Aos 28 anos mudou-se para Roma, passando a dedicar-se inteiramente à arte cinematográfica. De crítico de cinema passou a estudante de direção no Centro Sperimentale di Cinematografia na Cinecittà, onde conheceu cineastas influentes como Roberto Rossellini. O encontro com o diretor de Roma, Cidade Aberta (Roma città aperta, 1945) foi decisivo: aos trinta anos, colaborou no roteiro de Un Pilota Ritorna, de Rossellini. Mais tarde empenhou-se no roteiro de I Due Foscari, de Enrico Fulchignoni, e estreou na direção com o curta-metragem documental Gente del Pó (1943), um dos filmes precursores do neo-realismo.


Antes de destacar-se com seu primeiro longa-metragem, Crimes da Alma (1950), Antonioni produziu mais oito curtas que seguiam os preceitos neo-realistas. Em 1952 foi co-roteirista do primeiro filme de Federico Fellini, Abismo de um Sonho. Cesare Zavattini, o mentor do neo-realismo, em 1953 convidou-o, junto a outros cineastas do movimento (Dino Risi, Carlo Lizzani, Fellini, Francesco Maselli, Cesare Zavattini, Alberto Lattuada) para o filme em episódios O Amor na Cidade (Amore in Città), com histórias de amor passadas em Roma. Antonioni fez “Tentativa de Suicídio”, sobre mulheres apaixonadas suicidas.


Em 1956, começa seu distanciamento da estética neo-realista; ele parte para um cinema intimista, de fundo existencialista. No mesmo ano realizou As Amigas e, em 1957, O Grito (Il Grido): tratado emotivo sobre o operário Aldo que, após sofrer uma desilusão amorosa, parte pelas estradas da Itália em busca de entendimento. Este filme rompe definitivamente com a estética neo-realista ao abordar em chave sartriana a solidão do homem contemporâneo. Em 1960, produz a “Trilogia da incomunicabilidade” composta por A aventura (L’Avventura, 1960), A noite (La Notte, 1961) e O eclipse (L’Eclisse, 1962). Como o título da trilogia sugere, estes filmes abordam o isolamento humano em situações de angústia e desencontro amoroso. Em 1964, roda Deserto vermelho (Il deserto rosso), seu primeiro filme colorido (com fotografia magnífica de Carlo Di Palma), que explorou os temas da alienação e da solidão, conquistando o Leão de Ouro de Melhor Filme no Festival de Veneza. Sua atriz-fetiche, Monica Vitti, apareceu nos quatro filmes citados, encarnando mulheres perturbadas em descompasso com a modernidade.



Dois anos depois, Antonioni foi filmar na Inglaterra o “cult” Blow up: Depois daquele Beijo, sucesso de crítica (premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes) e de público (talvez pelo erotismo estilizado associado às imagens da contracultura e do culto ao corpo). Na tão esperada cena final com mímicos simulando um jogo, Antonioni brinca com o estatuto da imagem que se imagina e daquela que se capta pela lente mecânica. Contudo, seu melhor filme é Zabriskie Point (1970), obra subversiva, rodada nos Estados Unidos, em parte no deserto da Califórnia, com trilha de Pink Floyd e Rolling Stones, sobre a eclosão do movimento estudantil, contracultural, no auge da sociedade consumista. Duas seqüências são memoráveis: a orgia no deserto e a explosão da geladeira em câmara lenta. O filme foi um fracasso de bilheteria, ao contrário de Passageiro – Profissão Repórter (The Passenger, 1975), que projetou um Jack Nicholson em crise de identidade num mundo pouco acolhedor; o filme vale pela extremamente bem elaborada seqüência final.


No início dos anos de 1980, Antonioni realizou os medíocres Identificação de uma Mulher (Identificazione di una Donna, 1982) e O Mistério de Oberwald (Il Mistero di Oberwald, 1981). Em 1983, o cineasta sofreu um derrame cerebral que lhe deixou seqüelas graves na fala e na locomoção. Inativo durante mais de uma década, só em 1995 ele retornou com Além das Nuvens (Al di là Delle Nuvole), co-dirigido por Wim Wenders. Em 2004, participou do filme coletivoEros, formado por episódios de três cineastas de nacionalidades diferentes (Wong Kar-wai, Steven Soderbergh e Antonioni) sobre histórias de amor e erotismo. O curta de Antonioni, Il Filo Pericoloso Delle Cose, foi filmado na Toscana e abordou um casal de meia-idade em crise de relacionamento. Infelizmente, apenas na ocasião da morte é que muitas distribuidoras e editoras resolvem lançar material inédito.


FILMOGRAFIA 

2004: Eros (Eros)

2004: Lo sguardo di Michelangelo (curta-metragem)

2001: Il filo pericoloso delle cose

1995: Além das nuvens (Al di là delle nuvole)

1993: Noto, Mandorli, Vulcano, Stromboli, Carnevale

1989: 12 registri per 12 città

1989: Kumbha Mela

1982: Identificação de uma Mulher (Identificazione di una donna)

1981: O Mistério de Oberwald (Il mistero di Oberwald)

1975: Passageiro - Profissão: repórter (Professione: reporter)

1972: China (Chung Kuo - Cina)

1970: Zabriskie Point (Zabriskie Point)

1966: Blow-up - Depois daquele beijo (Blow-up)

1965: As três faces de uma mulher (I tre volti)

1964: O Deserto Vermelho (Il deserto rosso)

1962: O eclipse (L’eclisse)

1961: A Noite (La notte)

1960: A aventura (L’avventura)

1957: O grito (Il grido)

1955: As amigas (Le amiche)

1953: Amores na cidade (L’amore in città)

1953: Os Vencidos (I vinti)

1953: A Dama sem Camélias (La signora senza camelie)

1950: La funivia del faloria

1950: La villa dei mostri

1950: Crimes d’alma (Cronaca di un amore)

1949: L’amorosa menzogna

1949: Bomarzo

1949: Regazze in bianco

1949: Sette canne, un vestito

1949: Superstizione

1948: Nettezza urbana

1948: Oltre l’oblio

1948: Roma-Montevideo

1943: Gente del Pó

04/02/2012

Desejo e erotismo no cinema de Almodóvar

A pele que habito (La Piel que Habito, 2011), recente filme de Pedro Almodóvar, chega num momento oportuno para a reflexão acerca da filmografia deste cineasta que trafegou, em mais de duas décadas, por uma estilística autoral - do underground ao mainstream, do kitsch ao melodrama – e agora apresenta sua “nova fase”, menos colorida, mais sombria e menos humorada. “Estou me tornando mais direto. Sinto-me mais maduro – até mais, talvez, do que gostaria de ser. Aliás, acho que isso é um sintoma da maturidade”, confessou Almodóvar.

Sua trajetória cinematográfica relaciona-se com suas influências familiares e culturais que, desde cedo, foram marcadas pela contravenção e pela celebração do desejo. Ele nasceu Pedro Almodóvar Caballero, em Calzada de Calatrava, interior rural da Espanha, em uma família religiosa que, tão logo, o matriculou num rígido colégio de padres. Inquieto com o universo conservador dos pais e da igreja, ele resolveu focar seu sonho: “ficcionalizar” o mundo em película, estilizando assim a realidade.

Com dezesseis anos, Almodóvar mudou-se sozinho para Madri, onde arrumou um emprego temporário numa companhia telefônica. Lá, mergulhou na movida madrileña, movimento marcado pela transgressão sexual e cultural em reação ao traumático período franquista. Com sua visão camp, passou a capturar aquilo que era glam e trash na realidade, sob a marca do exagero, do artificialismo e da estetização da vida – tudo para deflagrar por meio da caricatura – da mitificação - um retrato político do comportamento de sua época.

Ainda em Madri, trabalhou como desenhista, ator de teatro (no grupo Los Goliardos, ao lado de Carmen Maura), cantor e performer na banda de punk-rock Almodóvar y McNamara (foto acima), na qual participava travestido. Também atuou como escritor, publicando ensaios e novelas na Revista La Luna que, mais tarde, foram reunidos nos livros Patty Diphusa e Outros Textos (1991), série de contos sobre uma romântica estrela de filmes pornôs, e Fogo nas Entranhas (2000), relato apimentado, escrito em 1981, sobre um chinês, dono de uma fábrica de absorventes íntimos excitantes, que é abandonado por cinco mulheres. Com muitos amigos à sua volta e muitas imagens na cabeça (ia todas as noites à Cinemateca Espanhola), Almodóvar guardou algum dinheiro e comprou aquela que seria sua primeira câmera Super 8 para realizar curtas-metragens “amadores”, eróticos e ingênuos, com seus amigos ou ele mesmo atuando: Dos putas, o historia de amor que termina en boda (1974); La Caída de Sódoma (1975); Homenaje (1976); La estrella (1977); Sexo va, sexo viene (1977); Salomé (1978); e Folle... folle... fólleme Tim! (1978), seu primeiro "experimento" em tamanho de longa-metragem.
"Em meus primeiros filmes, eu abordava todos os gêneros, mas muitos foram inspirados nos afrescos bíblicos de Cecil B. DeMille. Nós filmávamos sem qualquer equipamento técnico, sempre com luz natural, e a filmagem se tornava uma festa entre amigos, em que cada um assaltava os armários da mãe ou da irmã para montar seu próprio guarda-roupa. Aos poucos tentei reconstituir o programa de uma verdadeira sala de cinema com meus filmes. Filmava notícias falsas, publicidade falsa e o filme propriamente dito. Esses programas tradicionais recompostos à minha maneira tiveram êxito porque a projeção se tornava um verdadeiro happening. Como todos os filmes eram mudos – era muito dificil gravar som em super8, e o resultado nunca era satisfatório -, eu me colocava ao lado do projetor e fazia as vozes de todas as personagens; fazia também comentários e às vezes críticas sobre o que não me agradava na atuação dos atores; cantava e tinha um pequeno gravador que me permitia inserir canções nos filmes. Era um espetáculo ao vivo, e o público adorava isso. As projeções aconteciam na casa de amigos, mas eu as organizava como a estreia mundial de um filme muito aguardado; era uma grande festa", declarou Almodovar.
Neste período de “juventude cinéfila”, ao mesmo tempo em que capturava a movida marileña (seu lado mais realista), também incorporava o glamour hollywoodiano de Greta Garbo, Marlene Dietrich, Rita Hayworth e Bette Davis. Admirava os programas de fofoca e as telenovelas. Idolatrava os cineastas do expressionismo alemão (Murnau, Lang), os melodramáticos (Luís Buñuel, Billy Wilder, Fassbinder e Douglas Sirk) e os artistas underground, como John Waters, Kenneth Anger e, principalmente, os filmes de Paul Morrissey e Andy Warhol. Este caldeirão de referências vai configurar aos poucos um cinema híbrido, “almodovariano”, com matrizes do cinema clássico e moderno, do trash e do refinado, do político e do debochado. Nos filmes de Almodóvar, a intocável diva fugirá dos padrões: a atriz-fetiche Rossy de Palma, com rosto caricato, nariz torto e olhos com cor diferente será sua diva por excelência, ao lado de Carmen Maura e Marisa Paredes. A subversão dos papéis consolidados também aparecerá na figura de seus heróis pervertidos: o macho peludo logo trocará a mocinha pelo mocinho; o padre que acabou de pregar um sermão aos pecadores seduzirá à noite os imaturos seminaristas; a mocinha raptada se apaixonará pelo maníaco sexual que a sequestrou; e a melhor mãe do mundo será um travesti...
Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón (1980), seu primeiro longa-metragem "oficial", trouxe a celebração do desejo, sem juízos de valor, a não ser o da liberdade individual: na trama, adaptada da fotonovela Erecciones Generales, Pepi cede sua virgindade para um policial que quer denunciá-la pelo cultivo de plantas de maconha no apartamento. Já o filme seguinte, Labirinto de Paixões (1982), falou das sexualidades a partir da sina do filho do imperador da Tirania que, à procura da liberdade pelas ruas de Madri, se depara com um jovem terrorista e uma ninfomaníaca. Maus Hábitos (1983) trouxe a rotina de um convento regado a drogas e performances com as freiras Irmã Esterco e Irmã Rata de Esgoto. Elas fazem de tudo, menos rezar. Que Fiz Eu para Merecer Isto? (1984), seu filme “fassbinderiano”, mostrou o dilema de uma diarista preocupada com a dispersão da família. Seu filho mais velho é traficante, o mais novo se deixa seduzir pelo dentista pedófilo para não precisar pagar a conta do tratamento, o marido é um taxista mentiroso, a sogra é viciada em água com gás, e por aí vai...


Inédito por aqui, o média-metragem musical Trailer para amantes de lo prohibido, realizado em 1985 para a rede televisiva TVE, filma os dilemas de uma mulher abandonada pelo marido, cujo drama é interpretado pela música “Where is my man?”, de Eartha Kitt. Em seguida, Almodóvar filmou uma rede de intrigas passionais, cheia de crimes de amor, touradas, virilidade e sexo em Matador (1986). Um ano depois trouxe aquele que seria uma “síntese” perfeita de seu cinema: A Lei do Desejo (1987). “Um de meus filmes preferidos... filme-chave na minha carreira e na minha vida. Fala de algo muito duro e ao mesmo tempo muito humano, que é minha visão do desejo. Quero exprimir a necessidade absoluta de se sentir desejado e o fato de, nessa roda do desejo, ser muito raro que dois desejos se encontrem e se correspondam, o que é uma das grandes tragédias do gênero humano” – declarou o cineasta. A trama conta a história de um diretor de teatro que se envolve com um reprimido fã enquanto monta a peça A Voz Humana, de Jean Cocteau, que será estrelada por Tina, sua irmã transexual que mudou de sexo para manter um caso incestuoso com o próprio pai.

A incursão de Almodóvar no mainstream veio com o sucesso mundial de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), longa que recebeu dezenas de prêmios e o levou à indústria americana do Oscar e ao reconhecimento da crítica e do público. Como o título alude, o filme trata dos limites da sanidade de três mulheres enfurecidas pelo desejo insatisfeito. Em Ata-me! (1990), Antonio Banderas interpreta um maníaco recém saído de uma clínica e que sonha em construir uma família. Para isso, ele rapta uma atriz, com quem força relações sexuais. O que seria uma tragédia criminosa torna-se um nonsense. A moça exclama com prazer: ata-me! Nos Estados Unidos, o filme recebeu a classificação X, a mesma dos filmes pornográficos. Para Almodóvar, “Ata-me! é quase um conto de fadas romântico, mas muitas pessoas o atacaram porque confundiram a história que eu contava com um filme de sadomasoquismo, o que evidentemente ele não é.

O cinema de Almodóvar é mais criativo nos anos oitenta. Seus filmes dessa fase traz as matrizes dramáticas de todo seu trabalho. E, fundamentalmente, a pulsão sexual como motor do desejo e possibilidade de transgressão dos valores sociais – tal como projetou o cinema de Pasolini. Em seu universo, os personagens outsiders (prostitutas, drogados, michês, cineastas, lésbicas, freiras, virgens, neuróticas, ninfomaníacas, psicopatas) são os mais adoráveis. A perversão é humanizada, às vezes mesmo ao preço de toda a lógica. Para Almodóvar, é no underground, no periférico, no obsceno, que as pulsões reprimidas se concentram; e, quando elas são levadas à cena, projetam-se na forma de profanação do sagrado e de sacralização do profano.

No anos de 1990-2000, a exemplo de De Salto Alto (1991), Kika (1993) e A Flor do Meu Segredo (1995), seus filmes foram se tornando cada vez mais frios e sutis. O frenesi do desejo foi substituído por paixões sombrias, em filmes como Carne Trêmula (1997); Tudo Sobre Minha Mãe (1999); Má Educação (2004); Volver (2006); Abraços Partidos (2009); e Fale com Ela (2002), que, na sequência silenciosa e em preto-e-branco, trazia um rapaz que mergulhava dentro da vagina de sua mulher na tentativa de conhecê-la profundamente.


O recente A pele que habito (2011), cujo roteiro foi inspirado no livro Tarântula, de Thierry Jonquet, é o cume desse percurso, sem as cores fortes e o humor grotesco de seus primeiros filmes. Ideologicamente, os personagens são maldosos no pior sentido, cobaias do poder que aspiram. O sexo já não é orgástico nem traz prazer mútuo: ele é fruto de estupros e de violência psicológica. Os personagens loucos se levam a sério, e as situações absurdas não são mais engraçadas, apenas absurdas. O que antes, na superfície e aparência, era mero espelho para uma revelação interna, agora é o próprio conteúdo, a primazia da imagem: o “decifra-me ou devoro-te”.

Mesmo assim, Almodóvar permanece fiel ao que Frédric Strauss indentificou em seu cinema,  no qual viu surgir “um mundo cuja profundidade muitas vezes reside na aparência; um mundo em que o único sentido parece ser um contrassenso, no qual as perturbações vêm restituir a ordem”. Distante da euforia underground e rebelde dos primórdios, Almodóvar alcançou uma estilística aprimorada, espelhada nos clássicos de Hollywood - de Hitchcock e Billy Wilder -, e projetada em belas imagens sobre roteiros interessantes, mergulhado tanto indie como no mainstream, e um tanto diluído sob o próprio signo “almodovariano”.

14/01/2012

O BEIJO CINEMATOGRÁFICO

Por Rodrigo Gerace*
Breve panorama do beijo na sétima arte. Desejo, pacto, amizade, romantismo, sublimação sexual, metáfora política. Os sentidos do beijo em diferentes filmes e contextos históricos. Dos beijos silenciosos aos beijos proibidos, do glamour hollywoodiano ao beijo maldito do cinema marginal, do romantismo clássico à violência contemporânea.

“Até parece beijo de cinema”. Quando ouvimos essa expressão, tudo indica que há algo de extraordinário neste beijo, diferente daquele cotidiano, dado fora das telas. Como o cinema estiliza a vida, a narrativa fílmica intensifica o beijo, tornando-o mais fantasmático, distante da realidade. Com ele, o mundo dos amantes se funde, o tempo pára, a fantasia aporta, os fetiches surgem. “O beijo cinematográfico é o beijo que faz os sinos tocarem, a sinfonia de fundo atingir seu clímax. Esse beijo prova que a paixão, que apenas se supunha, realmente existe, que o amor que o casal sentia era mesmo real” – salienta Luiz Nazario, escritor e professor de história do cinema da UFMG.

O beijo carrega consigo uma “confissão de verdade”, uma visibilidade indisfarçável. Pois até mesmo um beijo fake ou técnico, como dizem os atores, traz à cena certo realismo associado à “noção de ritualidade, de estetização da cena, para quem experimenta ou testemunha a situação”, pontua Mauro Pommer, jornalista e coordenador do curso de cinema da UFSC. Nesse sentido é que o beijo potencializa não apenas o voyeurismo, mas também a cumplicidade do espectador diante das intimidades alheias, ampliadas na tela grande da sala de cinema.

O close up do beijo não aumenta apenas seu tamanho, como também permite acesso a detalhes íntimos da cena, entregando unicamente ao espectador informações emotivas dos personagens, como tensão, excitação, medo, paranóia, repulsa. Uma pequena mordida no lábio ou um beijo tenso, com pálpebra arregalada, como a de Nicole Kidman em De olhos bem fechados (1999), de Kubrick, dá pistas de que há algo disfuncional naquele casamento, cujo marido, mais tarde, se entregará, sem sucesso - a orgias secretas.

Desde o primeiro cinema, convencionou-se que o tocar entre lábios simboliza um momento romântico de prazer, de amizade, de clímax, como no happy end de alguns melodramas, onde “o beijo, mais que ato de erotismo, passou a representar a noção de pacto dos amantes – aquilo que os une entre si, e os separa do restante das pessoas”, diz Pommer. No cinema clássico, apesar do final feliz, comenta Nazario, “o casal não se formava imediatamente. Inicialmente, há apenas uma atração irresistível. Pouco a pouco essa atração se transforma em amor, mas esse amor não se consuma senão no beijo final. Os personagens são colocados diante dos maiores obstáculos, mal-entendidos, aventuras, horrores, de modo que parece a todos que a coisa mais difícil do mundo é um homem conseguir beijar uma mulher. Talvez para muita gente isso seja uma realidade, mas o interessante no cinema clássico é que esses homens e mulheres que tentavam se beijar – e que só o conseguiam depois de dias, meses, anos, de tentativas fracassadas que duravam o filme inteiro –, eram pessoas adultas, vividas, maduras. Há uma virgindade anacrônica nos heróis adultos dos velhos filmes de Hollywood que os torna fascinantes”.

Assim, o sentido do beijo cinematográfico não se esgota no próprio ato, pois traz simbolismos cambiáveis com o status tecnológico, ideológico e sexual de cada época ou mesmo de cada filme. Para Pommer, a imagem isolada de um beijo tende a se esvaziar se não estiver contextualizada. “O que efetivamente conta em termos de uma atuação da cena sobre a sensibilidade do espectador são as circunstâncias cercando o evento do beijo. A erotização da cena é, portanto, um fenômeno sempre relativo. Pouca coisa pode às vezes significar bastante”. Pois mesmo a ausência ou o adiamento do beijo pode insinuar um beijo imaginário que fica reiterando na mente do público que espera pelo beijo final nos melodramas, pelo beijo- mordida nos filmes de vampiro ou pelo beijo excitante nos filmes eróticos.

OS PRIMEIROS BEIJOS

The Kiss (1896), curta-metragem de William Heise e distribuído por Thomas Edison, é considerado como o primeiro beijo exibido ao público. Ele mostra um casal de meia-idade, os atores John Rice e May Irwin, que se beijam timidamente, mas com certo prazer no semblante. O ato mostrou-se bem ousado para a época puritana: primeiro pelo tabu do beijo, depois pelo posicionamento incomum da câmera que, em close, capturava aquele gesto íntimo. Até então, a tradição fílmica orientava que a câmera registrasse, como no teatro, todo o corpo dos atores, em plano aberto. A cena, isolada de seu contexto dramático (foi retirada da peça The Widow Jones) e pelo enquadramento fechado, tornou-se obscena ao público, aquele mesmo que aplaudiu os atores na cena teatral. Imerso em um “cinema de atrações”, o curta codificou um imaginário exibicionista: o encontro dos lábios era como um flagra sexual proposital.

O filme foi denunciado como pornográfico por membros da igreja católica e considerado indecente por alguns críticos, como Herbert Stone, que, num editorial de junho de 1896, em Chicago, clamou pela polícia, alegando que a obra era de extremo mau gosto, repugnante. Dizia ainda que “nenhum dos intérpretes era particularmente atraente... No tamanho real, o beijo já era tosco, mas nada comparado ao efeito do ato aumentado em proporções gigantescas e repetido três vezes consecutivas. Todo o charme da Miss Irwin desapareceu, transformando sua arte em algo indecente e de uma vulgaridade prodigiosa... Fatos assim demandam intervenção da polícia”. Contudo, conforme comentou Nazario, “The Kiss foi apenas um susto passageiro, como o trem dos Irmãos Lumière ‘atropelando’ os espectadores das primeiras sessões do cinema. Quatro anos depois, Edison fez um remake de The Kiss com um casal de atores mais jovens, bonitos e esbeltos, e este beijo de 1900, até mais longo e erótico que o primeiro, não causou nenhum escândalo”.

Outro filme, produzido no final do século XIX, retificou o beijo como algo íntimo e privado. The Kiss in the tunnel (1899), de George Albert Smith, revelou beijos audaciosos dentro do vagão-leito de um trem que adentrava em um escuro túnel. Hoje, a série de selinhos em ambos os curtas parece insossa, mas, na época, causou tanto frisson no público que John Rice chegou a oferecer aulas e demonstrações de beijos nos vaudevilles.

Neste primeiro cinema, as cenas de beijo davam pistas para se reconhecer e desejar os corpos em sua intimidade exposta na tela. Ao mesmo tempo em que a câmera estruturava sua linguagem própria numa narrativa ficcional ilusória, ela também descortinava a vida, mostrando tudo o que existia e ainda tudo o que não existia e não era revelado ao público: nudez, beijos, sexo. Por sinal, a ambição de tudo exibir será a característica mais marcante dos stag films, os filmes pornográficos mudos.

No início do século XX os beijos passaram a ser menos ingênuos, evocando erotismo e sedução. Theda Bara, a vamp do cinema mudo, instigava seus parceiros exclamando: “Kiss me, my fool!”, levando-os à sedução fatal. Cineastas renomados como Cecil B. De Mille, Erich Von Stroheim e David W. Griffith projetaram beijos em imagens ousadas. Em Griffith, os beijos na boca, inclusive entre pessoas do mesmo sexo, eram dados como prova de amizade e de amor puro. Chaplin mostrava, em 1916, um atrapalhado beijo gay em Behind The Screen.

Algumas produções traziam tantos beijos que chegaram a ser cronometrados. No longa de Alan Crosland, Don Juan (1926), o ator John Barrymore beijou mais de 127 vezes os lábios de Mary Astor e Estelle Taylor, isso sem contar as “bitocas” nas demais atrizes, totalizando 191 beijos e um beijo a cada 53 segundos. Outros beijos tornaram-se marcantes pela intensidade: o beijo entre John Barrymore e Dolores Costello no final de A Fera do Mar (1925), de Millard Webb, fez a atriz desmaiar, saturada após quatro longos takes repetidos do beijo. Houve também o encontro fatal entre Greta Garbo e John Gilbert em A carne e o diabo (1927), de Clarence Brown, que materializou o primeiro beijo na horizontal, com o casal deitado. Em Aurora (1927), de Murnau, o beijo apaixonado dos amantes os enleva ao atravessarem a rua, sem olhar para os lados, fazendo o trânsito parar num caos de veículos em torno deles. O drama Asas (1927), de William Wellman, mostrava o envolvimento trágico entre os amigos Jack Powell e David Armstrong, pilotos durante a Primeira Guerra Mundial. No clímax, na ocasião do ferimento de um deles, dizem: “Você sabe que não há nada no mundo tão significante pra mim quanto a sua amizade”. O outro: “Eu sempre soube disso. Todo o tempo...” E selam a confissão com um beijo na boca. A ambigüidade sexual aparecia nas personagens de Marlene Dietrich em Marrocos (1930), de Sternberg, e Greta Garbo em Rainha Cristina (1933), de Mamoulian, e O Véu Pintado (1934), de Boleslawski – filmes nos quais as duas maiores divas do cinema beijavam livremente suas admiradoras.

BEIJOS PROIBIDOS

Por conta do erotismo explícito, nos anos de 1920-30, Hollywood era considerada pela opinião pública como a “cidade do pecado”, não apenas pelas tramas sexualizadas, mas também pelos bastidores e wild parties que envolviam escândalos entre as celebridades. Desde então, grupos conservadores clamaram por “decência no cinema”, levando ao estabelecimento do Código de Produção (ou Código Hays), que passou a controlar de 1934 a 1968, dentro dos estúdios, as imagens do obsceno. Cenas de conteúdo sexual e de impacto foram proibidas (sexo, crime, parto, aborto, violência, suicídio, prostituição, contrabando, violação da lei, subversão da família e da igreja, etc). Acordos foram firmados com igrejas de diversos credos, todas entusiasmadas com a repressão ao cinema.

O sexo assumiu então a forma perversa do tabu. Como toda censura que se faz por meios negativos, ela se revelou ambígua: o cinema sexualizou-se ainda mais, só que por meios simbólicos, gerando todo um imaginário romântico, de sublimação sexual. Era praticamente uma autocensura que começava desde o desenvolvimento dos roteiros até a filmagem das cenas. Beijos “selinhos” estavam liberados, desde que limitados a 25 segundos. Beijos longos e apaixonados eram vetados. Beijo de língua nem pensar. “O beijo na boca de língua é proibido. Não se deve mostrar beijos, abraços demasiados apaixonados, poses e gestos sugestivos. Cenas de paixão não devem ser introduzidas se não forem absolutamente essenciais à intriga. A paixão deverá ser tratada de forma a não estimular as emoções mais básicas. Nunca se deve mostrá-las de maneira explícita” – dizia o Código.

Vários cineastas souberam driblar a censura, projetando beijos que insinuavam outros sentidos: um beijo no final da trama era mais que um happy end, às vezes selava um pacto político ou aludia a um coito sexual, cuja visibilidade era proibida. Até mesmo uma cena sem beijos tornava-se marcante, como a de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman se despedindo em Casablanca (1942), de Michael Curtiz, que entrega a fantasia do beijo à imaginação do espectador. Assim, ao mesmo tempo em que as restrições do código reprimiam a explicitação do desejo, estimulavam ainda mais a imaginação erótica. Como no beijo roubado em E o Vento Levou (1939); no beijo “excessivo” de 3 minutos e 5 segundos em You’re in the Army now (1940); no beijo gigantesco entre Elizabeth Taylor e Montgomery Clift em Um Lugar ao Sol (1951); ou no beijo molhado em A um passo da eternidade (1953), em que Deborah Kerr, nos braços de Burt Lancaster, rolava seminua na praia, em um “orgasmo” constante, estimulado pelo vai-e-vem das ondas.


A genialidade de Alfred Hitchcock soube contornar com maestria as limitações do Código, criando uma gramática de sublimação do sexo. Para Pommer, “a impossibilidade de representação visual do ato sexual, ou mesmo (de) cenas de beijos apaixonados, levou a uma erotização do conteúdo dos diálogos, trabalhando com subentendidos”, como no “célebre plano-seqüência de Interlúdio (1946), onde Cary Grant segue beijando Ingrid Bergman da sacada do apartamento até a sala, enquanto caminham abraçados”. Em Ladrão de Casaca (1955), a sedutora personagem de Grace Kelly, depois de se aventurar com o amante, vivido por Cary Grant, inicia uma seqüência de beijos acompanhada por fogos de artifício, um “orgasmo” compensatório. Em Intriga Internacional (1959), os recém-casados se beijam ardentemente dentro de um vagão até que o trem penetra rapidamente dentro de um túnel e o filme acaba. Na imaginação do espectador, o beijo prossegue...e já se sabe a próxima cena. Como não podia mostrar beijo gay, Hitchcock sublimou a relação homoerótica entre os protagonistas de Festim Diabólico (1948) por meio de diálogos íntimos e pelo assassinato do amigo causado por ciúmes.

A repressão do beijo foi bem representada pelo diretor Giuseppe Tornatore no filme Cinema paradiso (1989). Na trama, o personagem do padre Adelfio é como os olhos da censura: ele assiste previamente os filmes que aportam na cidade, obrigando o projecionista a cortar todas as cenas de beijo. Como bom cinéfilo, o projecionista arquiva as cenas mutiladas e, somente no final, é que descobrimos a maratona de beijos proibidos.

Pela sublimação do sexo, este cinema clássico evocava uma aura de glamour. Os personagens expressavam seus desejos eróticos por meio de atos comuns, mas simbólicos, como uma mão trêmula, um lábio semi aberto, uma cama de casal revirada, um roçar de pernas, um beijo ao pé do ouvido. A mulher era divinizada no star system. “Não se podia mostrar uma estrela desgrenhada, sem maquiagem, mal iluminada. O desejo despertado pela diva era consumado apenas no beijo na boca, que sublimava a penetração sexual, de modo que até esse ato sujo de secreções e viscosidades era limpo e asseado” – comenta Nazario.

O BEIJO UNDERGROUND

Apesar de a repressão ter estimulado a criação de um universo que, por sua natureza anti-realista, favorecia a fantasia erótica, a trajetória do beijo no cinema underground (anos 50 a 70) foi diferente, mais explícita e menos reprimida. As tramas exaltavam o desejo, livre dos padrões sociais e das tradições cinematográficas hegemônicas. No Brasil, mesmo com a navalha da Ditadura, beijos erotizados rolavam soltos nas pornochanchadas e também no cinema marginal que, durante os anos 60 e 70, produziu dezenas de filmes na chamada Boca do Lixo.

No underground, o beijo passou a identificar a realização do desejo através do prazer em si mesmo. Cineastas como Cocteau, Jean Genet, Markopoulos, Kenneth Anger, Jack Smith e Paul Morrissey projetaram imagens sensoriais de beijos, coitos e excitações sob a perspectiva do êxtase e da liberdade sexual, cuja estilística influenciaria toda uma geração, de Pasolini à Derek Jarman, de John Waters à Almodóvar, de Gregg Araki à Bruce LaBruce. Quem levou aos limites a transgressão estética do desejo foi Andy Warhol. Mergulhado na contracultura dos anos 60, o artista capturou sua época: da mass media ao underground, do cultmovie ao trash, do glamour hollywoodiano à pornografia, da televisão à intelectualidade, das fofocas às vanguardas. Warhol registrava e erotizava tudo ao seu redor: entre 1963 e 1972, registrou em 16mm centenas de metros de filmes insólitos, subversivos e experimentais que capturavam a performance do corpo no cotidiano, que teatralizavam a vida de modo camp. Seus filmes tinham roteiros simplórios, abordavam a intimidade das pessoas: o ato de acordar, conversar, brigar, excitar-se, transar. Em um deles, Kiss (1968), Warhol registrou 55 minutos com diversos casais se beijando durante 3 minutos e meio cada um deles, criando uma iconoclastia do beijo, além de uma paródia ao beijo hollywoodiano durante a censura.

No cinema marginal, cineastas como Rogério Sganzerla, Julio Bressane, Ozualdo Candeias, entre outros, teceram fantasias eróticas em filmes politicamente outsiders, trágicos. Sem muito glamour, este cinema deflagrava a realidade política de modo anti-romântico. A musa do cinema marginal, Helena Ignez, declarou que praticamente não havia beijo apaixonado. Em sua personagem Angela Carne Osso, em A Mulher de Todos (1969), de Sganzerla, havia forte atração sexual, mas sempre sem beijos. “Dentadas e queimaduras de charutos, ponta pé, traição, forte sexualidade. O carinho do beijo não existia nos personagens”. Em Bressane, particularmente Cara a Cara (1967), “a sexualidade era angustiada e mortal, também sem beijos. A morte do amor, isto é, do meu personagem”. E mesmo a femme fatale Janete Jane, de O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Sganzerla, é morta, e sem beijos.

A NOVELA DO BEIJO GAY

Embora o underground tenha dado maior vazão ao beijo gay/lésbico, o cinema mainstream o abordou por meio de insinuações veladas e representações melancólicas sem finais felizes, mascarando-o em sua complexidade afetiva e sexual, em filmes pioneiros como Diferente dos outros (1919), de Richard Oswald; Mikael (1924), de Carl Dreyer; Sexo na cadeia (1928), de Dieterle; Lot in Sodom (1933), de James Watson e Melville Webber; e Mulheres de uniforme (1931), de Leontine Sagan e Carl Froelich.

No cinema europeu, de Pasolini a Visconti, de Fellini a Bergman, os personagens gays tinham fins tristes, solitários. Após os anos setenta é que ocorre uma abertura mundial: Rosa von Praunheim filma Não é o homossexual que é perverso, mas a sociedade em que ele vive (1971) repleto de beijos entre barbudos; Arthur Hiller mostra em close um beijo entre homens casados, mas infelizes com as esposas, em Making Love (1982); Fassbinder estiliza um romance sadomasoquista em Querelle (1982); a feminista Barbara Hammer registra beijos e afetos entre mulheres mais velhas em Nitrate Kisses (1992); David Lynch projeta um beijo paranóico entre as personagens de Cidade dos Sonhos (2001); cineastas indies, como Lukas Moodysson, filmam descobertas sexuais iniciadas com o rito do primeiro beijo; o argentino Plata Quemada (2000) revela um beijo gay à beira da morte; Almodóvar problematiza a identidade em A lei do desejo (1987), a começar pelo beijo, quando, já na cena inicial, um rapaz excitado beija a si mesmo no espelho; Milk (2008), de Gus Van Sant, torna política a visibilidade do beijo; e o oscarizado Brokeback Mountain (2005), de Ang Lee, leva ao grande público o explosivo beijo dos cowboys apaixonados.

No cinema nacional, a partir dos anos noventa, o personagem homossexual livrou-se um pouco do estigma estereotipado das pornochanchadas, comumente associado à piada, à delinqüência e ao medíocre, conforme notou Antonio Moreno, autor do livro A personagem homossexual no cinema brasileiro (2001) e professor de cinema da UFF-RJ. “A questão (da abordagem gay) passa muito pelo contexto da época em que os filmes foram realizados. Você vai verificar muita recusa de beijos na tela ou de representações mais no sentido de chocar violentamente a platéia, principalmente nos filmes com cenas de lesbianismo (Noite Vazia, 1964, Walter Hugo Khouri). O que distancia muito do sentido do beijo como verdadeira manifestação de afeto explicitado numa cena fílmica, na tela do cinema. Além do beijo relâmpago no final de O Menino e o Vento (1966), de Carlos Hugo Christensen, só lembro de um beijo realmente escrachado, sem concessões entre Tunico Pereira e Anselmo Vasconcelos, atores realmente ecléticos, maravilhosos, em República dos Assassinos (1979), de Miguel Faria Jr.”

Desde então, diversos beijos apareceram em Amores possíveis (2001), de Sandra Werneck; Madame satã (2002), de Karim Aïnouz; A Concepção (2005), de José Eduardo Belmonte; Onde Andará Dulce Veiga? (2007), de Guilherme de Almeida Prado; A festa da menina morta (2008), de Matheus Nachtergaele; Do começo ao fim (2009), de José Aluízio Abrantes; Como Esquecer (2010), de Malu de Martino; Os 3 (2011), de Nando Olival; sem contar as produções independentes lançadas em festivais LGBT.

FINAL SEM BEIJO

Se, no primeiro cinema, um tímido beijo era tido como pornográfico, hoje ele é mero assunto “sessão da tarde”, não provoca frisson. O cinema-explícito contemporâneo estiliza friamente o beijo e o sexo em filmes de Lars von Trier, Michael Haneke, Gaspar Noé, Michael Winterbottom, Bruno Dumont, Virginie Despentes, Larry Clark, Patrice Chéreau, Catherine Breillat, John Cameron Mitchell, entre outros.

O beijo cinematográfico perdeu sua aura romântica para a estilização realista do sexo, tanto que na obra dos cineastas acima o sexo aparece explícito e, ainda que com propósitos dramáticos, carece de afeto, beijos ou romantismo. Geralmente o carinho do beijo, no cinema indie atual, quando aparece, tem sua representação associada à violência (estupros, crimes), à escatologia e à agressividade. Para o cineasta underground canadense Bruce LaBruce, “a urgência sexual foi transformada num apetite voraz por violência e carnificina. O que a cultura fez para substituir a vontade de sexo explícito foi difundir largamente imagens de violência explícita. Marcuse chamou isso de ‘sublimação repressiva’. Neste sentido, a violência, e por extensão a morte, é a nova pornografia”. E, convenhamos, quase não há beijos na pornografia.

Tal como a sociedade contemporânea, parece que são mais marcantes as cenas violentas de nosso cinema do que as raras cenas românticas. Ou você se recorda de um beijo inesquecível no cinema atual? Em alguns países islâmicos e orientais, o beijo ainda é tido como obsceno, tabu. Na Índia, o recente filme Dunno Y... Na Jaane Kyun (2010), de Sanjay Sharma, em que os atores Kapil Sharma e Yuvraaj têm uma relação afetiva, sofreu protesto e censura, levando críticos, políticos e religiosos a clamarem por uma “censura bollywoodiana” às cenas de sexo. No caso, consideraram como “sexo” a cena de beijo entre os personagens. O beijo foi tão polêmico que o ator Yuvraj foi deserdado pela família. Até mesmo o Oscar deste ano lapidou, por segundos antecipados, a transmissão do selinho entre Javier Bardem e Josh Brolin durante a apresentação. Algumas emissoras também censuraram o beijo gay em um dos episódios de Os Simpsons. O beijo no cenário contemporâneo é assim esquizofrênico, ora estimulado ora reprimido, ora histérico ora vazio de sentido, ora associado ao amor e à intimidade ora gratuito e público, distribuído por pessoas com placas nas ruas. Tudo indica que os beijos clássicos eram mais cinematográficos.

* Versão integral do artigo originalmente publicado na Revista da Livraria Cultura (matéria de capa), em Dezembro de 2011.
 

02/01/2012

MELHORES FILMES DE 2011


Não vi Fausto (Faust), do Sokurov, nem Um Método Perigoso (A Dangerous Method), do Cronenberg, pois ainda não estrearam por aqui. De todo modo, lanço minha lista dos dez filmes que mais admirei no ano de 2011, dentro do conjunto “estética-narrativa-ideologia”. Elenquei também uma breve relação de bons lançamentos que trouxeram alguma relevância artística para a cinematografia de seus países. Embora a lista dos 10+ tenha contemplado muitos cineastas renomados, ela também trouxe diretores indies, não necessariamente estreantes, como Miranda July e os brasileiros Juliana Rojas e Marco Dutra.

1. MELANCOLIA
(Melancholia, Dinamarca/França/Suécia). Direção: Lars von Trier.

2. O GAROTO DA BICICLETA
(Le Gamin au vélo, Bélgica/França/Itália) Direção: Jean-Pierre e Luc Dardenne.

3. PINA
(Pina, Alemanha, França). Direção: Wim Wenders.

4. ÁRVORE DA VIDA
(The Tree of Life, EUA). Direção: Terrence Malick

5. O CAVALO DE TURIM
(A Torinói Ló, Hungria/França/Alemanha/Suíça/EUA). Direção: Béla Tarr.

6. O FUTURO
(The Future, Alemanha/EUA). Direção: Miranda July.

7. MEIA-NOITE EM PARIS
(Midnight in Paris, EUA/França/Espanha). Direção: Woody Allen.

8. O MÁGICO
(L'illusionniste, França/Inglaterra). Direção: Sylvain Chomet. Roteiro Jacques Tati.

9. A PELE QUE HABITO
(La Piel que Habito, Espanha). Direção: Pedro Almodóvar.

10. TRABALHAR CANSA
(Brasil). Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra.


OUTROS DESTAQUES
Poesia, de Chang-dong Lee; Medianeras, de Gustavo Taretto; Howl, de Rob Epstein e Jeffrey Friedman; Tomboy, de Céline Sciamma; Inquietos, de Gus Van Sant; Homens e Deuses, de Xavier Beauvois; Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, de Apichatpong Weerasethakul; Eu receberia as piores noticias dos seus lindos lábios, de Beto Brant; Contracorrente, de Javier Fuentes-León; Potiche, de François Ozon; As Canções, de Eduardo Coutinho; Amores imaginários, de Xavier Dolan; Drive, de Nicolas Winding Refn; Um Conto Chinês, de Sebastián Borensztein; O primeiro que disse, de Ferzan Ozpetek; Um Sonho de Amor, de Luca Guadagnino.