Diferente do cinema metafísico e melancólico do grego Theo Angelopoulos, o novo filme do cineasta Yorgos Lanthimos, seu conterrâneo, revela como o nonsense e o aparentemente clean também esconde tristeza e alienação. Tal como A Vila (2004), de Shyamalan, e Dogville (2004), de Lars von Trier, Dente Canino (Kynodontas, Grécia, 2009) mostra a catástrofe que explode quando se alia isolamento, poder e provincianismo. No caso, um casal resolve criar seus filhos sem comunicação com o resto do mundo; ninguém sabe o que se passa além dos muros do quintal, a não ser o pai, que trabalha numa fábrica.Sem resquícios do mundo globalizado nem referências da cultura de massa, os três filhos adultos – duas mulheres e um homem - mimetizam gestos e uma linguagem verbal própria, “ensinada” perversamente pelos pais. Para eles, por exemplo, zumbi significa uma florzinha amarela no jardim, e vagina tem o mesmo sentido que uma luz forte. Assim, dentro desta paranóia paterna, eles crescem num mundo-alienígena, medíocre, falho em referências culturais e interpessoais, deslocando-os para uma vida espontânea, quase infantil, onde o impulso sexual e agressivo impera – lembrando aqui o estilo performático dos Idiotas (1997), também de Trier.
Feito cães enjaulados, os jovens são eventualmente surpresos pela presença de Christina, a única pessoa de fora que pode entrar na casa. Ela é contratada pelo monstro paterno para satisfazer as necessidades sexuais do filho e, em off, também as das filhas - tudo mostrado em discretas cenas de sexo explícito, fato já comum no cinema cult. Como o anjo exterminador de Teorema, de Pasolini, aquele ser externo irá sexualizar a casa, trazendo erotismo e subversão à ordem estabelecida. É ela, por exemplo, quem vai apresentar elementos do universo pop aos jovens: do filme Rocky, o Lutador até o brega Flashdance. A melhor cena (aqui) concentra-se numa sala onde as irmãs praticam uma inusitada dança, intuitiva, com mínimas referências que têm sobre movimentos, música e coreografias.Lanthimos registra os sintomas de um regime familiar totalitário que, por meio de ideologias e verdades inventadas, criam um mundo fictício, alienante, mas verossímil para quem o obedece. Como diz um treinador de cachorros no filme, “eles são amestrados como queremos que se comportem". A metáfora da obediência e do isolamento vai além, segundo o cineasta: “Queria mostrar como é fácil manipular a percepção que as pessoas têm das coisas e do mundo. Isso serve para uma família, para grupos sociais ou para um país." Aquela casa isolada em suas tradições seria a Grécia diante do caos globalizante mundial?
Tão afiado e cruel quanto Dogville, porém menos filosófico e inventivo esteticamente, Dente Canino provoca até mesmo o espectador, passivo diante de situações insustentáveis, mas que são levadas adiante como se fossem “normais”. Muito além do jardim existe um mundo incerto e caótico, mas certamente menos escuro e sufocante que o próprio quintal.Em 2009, o longa ganhou o prêmio de melhor filme na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes.










