terça-feira, 17 de agosto de 2010

Dente Canino: o irmão grego de Dogville

Diferente do cinema metafísico e melancólico do grego Theo Angelopoulos, o novo filme do cineasta Yorgos Lanthimos, seu conterrâneo, revela como o nonsense e o aparentemente clean também esconde tristeza e alienação. Tal como A Vila (2004), de Shyamalan, e Dogville (2004), de Lars von Trier, Dente Canino (Kynodontas, Grécia, 2009) mostra a catástrofe que explode quando se alia isolamento, poder e provincianismo. No caso, um casal resolve criar seus filhos sem comunicação com o resto do mundo; ninguém sabe o que se passa além dos muros do quintal, a não ser o pai, que trabalha numa fábrica.

Sem resquícios do mundo globalizado nem referências da cultura de massa, os três filhos adultos – duas mulheres e um homem - mimetizam gestos e uma linguagem verbal própria, “ensinada” perversamente pelos pais. Para eles, por exemplo, zumbi significa uma florzinha amarela no jardim, e vagina tem o mesmo sentido que uma luz forte. Assim, dentro desta paranóia paterna, eles crescem num mundo-alienígena, medíocre, falho em referências culturais e interpessoais, deslocando-os para uma vida espontânea, quase infantil, onde o impulso sexual e agressivo impera – lembrando aqui o estilo performático dos Idiotas (1997), também de Trier.
Feito cães enjaulados, os jovens são eventualmente surpresos pela presença de Christina, a única pessoa de fora que pode entrar na casa. Ela é contratada pelo monstro paterno para satisfazer as necessidades sexuais do filho e, em off, também as das filhas - tudo mostrado em discretas cenas de sexo explícito, fato já comum no cinema cult. Como o anjo exterminador de Teorema, de Pasolini, aquele ser externo irá sexualizar a casa, trazendo erotismo e subversão à ordem estabelecida. É ela, por exemplo, quem vai apresentar elementos do universo pop aos jovens: do filme Rocky, o Lutador até o brega Flashdance. A melhor cena (aqui) concentra-se numa sala onde as irmãs praticam uma inusitada dança, intuitiva, com mínimas referências que têm sobre movimentos, música e coreografias.

Lanthimos registra os sintomas de um regime familiar totalitário que, por meio de ideologias e verdades inventadas, criam um mundo fictício, alienante, mas verossímil para quem o obedece. Como diz um treinador de cachorros no filme, “eles são amestrados como queremos que se comportem". A metáfora da obediência e do isolamento vai além, segundo o cineasta: “Queria mostrar como é fácil manipular a percepção que as pessoas têm das coisas e do mundo. Isso serve para uma família, para grupos sociais ou para um país." Aquela casa isolada em suas tradições seria a Grécia diante do caos globalizante mundial?
Tão afiado e cruel quanto Dogville, porém menos filosófico e inventivo esteticamente, Dente Canino provoca até mesmo o espectador, passivo diante de situações insustentáveis, mas que são levadas adiante como se fossem “normais”. Muito além do jardim existe um mundo incerto e caótico, mas certamente menos escuro e sufocante que o próprio quintal.

Em 2009, o longa ganhou o prêmio de melhor filme na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Filmes inusitados

Na cinematografia contemporânea, três grandes cineastas, de diferentes países, apostam seus roteiros em estéticas e narrativas inusitadas:

MELANCHOLIA
A esquizofrenia criativa de Lars Von Trier (foto) não cessa: depois de produzir pornografia gay estilizada em Hot Men Cool Boyz (2000), concluir a segunda parte da "Trilogia América" com Manderlay (2005), dirigir um tediodo filme-de-escritório, O Grande Chefe (2006), e trazer as neuroses diabólicas de um casamento em O Anticristo, ele agora produz um thriller psicológico: Planet Melancholia. Próximo dos filmes-catástrofes e do melodrama, o cineasta dinamarquês irá retomar a estética do Dogma 95, com câmera nas mãos. Embora pareça novidade temática a ficção científica, ela já apareceu em outras produções do diretor: Epidemia, O elemento do Crime e na mórbida série O Reino – um de seus melhores trabalhos. Com roteiro e direção autorais, o filme está sendo rodado na Alemanha e na Suécia, com elenco formado por Charlotte Gainsbourg, John Hurt, Charlotte Rampling e Kirsten Dunst.

MEU FILHO, OLHA O QUE VOCÊ FEZ!
Imagine um filme dirigido por Werner Herzog e produzido por David Lynch. Esta é a nova empreitada de ambos, que recriaram nas telas um fato verídico: um jovem ator, inspirado nas tragédias gregas, mata a mãe com uma espada e, a seguir, se isola em uma casa para enfrentar a polícia. Cheio de misticismo e cenas dispersas (epifânias do personagem?), o resultado deixa a desejar, tamanho o talento dos cineastas. Mas, mesmo sendo um "filme-alienígena" na filmografia deles, o longa traz certo clima interessante, o de estranheza e autenticidade diante do absurdo. No elenco estão Willem Dafoe, Chloë Sevigny e Michael Shannon. A melhor cena, e a mais surreal, ocorre ao som de Caetano Veloso cantando (de novo!) “Cucurucucu Paloma”. Veja aqui.

SHIRIN
O novo filme do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, como ele mesmo comenta, é o mais artificial, mas também o mais autêntico. Na trama, 113 mulheres iranianas e uma francesa (Juliette Binoche) passam o filme todo olhando para uma encenação artística. Só vemos seus rostos e corpos reagirem-se com a representação do poema persa "A História de Khosrow e Shirin", escrito no século XII, que ocorre na frente delas. Um filme sobre intimidades, recordações e sofrimentos estampados nos olhares densos e reprimidos daquelas mulheres. Ao modo de uma sofisticada câmera-escondida, Abbas captura as reações físicas (e emotivas) da platéia (as mulheres) de maneira surpreendente. Mas é tudo mentira, tudo encenação, as mulheres atuam.... Contudo, mesmo assim, somente por meio da mentira e da simulação (da técnica, do artifício) é que o cinema de Abbas encontra as verdadeiras emoções.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O cinema outsider de John Waters

Ele já foi chamado de doente, pervertido e até de “o príncipe do vômito”. Ultrajante, escatológico, bizarro – não faltam adjetivos e conceitos moralistas para categorizar o cinema de John Waters. Embaralhando diversos estilos, do underground de Andy Warhol e Kenneth Anger aos melodramas de Fassbinder, seus filmes são híbridos e exagerados: esquetes absurdas são mostradas em narrativas convencionais, situações corriqueiras são vivenciadas por personagens histriônicos que as deixam extraordinárias; sem contar o erotismo que se converte em piada e escatologia, e o seu mundo nonsense que se torna artificial e kitsch.

Ilustração maior é Pink Flamingos (1972), seu filme mais cultuado e maldito, em que toda transgressão ao padrão burguês ocorre através do pitoresco, a começar pela trama do filme: um concurso para eleger a pessoa mais nojenta do mundo. Divertido, o filme traz certo ineditismo às cenas do circuito cult da época: escatologia e sexo explícito. Até este momento, Waters era restrito ao cinema de arte, tanto é que o público médio nunca entendeu filmes como "Pink Flamingos". Fui exibir o filme numa prisão e os detentos quiseram me linchar. Eles me chamaram de tarado e pervertido. E olha que esses caras eram todos assassinos e estupradores! – diz o cineasta.
Sua inserção no cinema mainstream veio com Polyester (1981), filme em que Francine Fishpaw (a travesti Divine) é uma mãe de família alcoólatra casada com um senhor que mantém uma sala de cinema pornô clandestina. Eles têm dois filhos, uma ninfomaníaca e um rapaz violento e podólatra viciado em desinfetantes. O mais curioso, na ocasião da estréia nos cinemas, foi o cartão Odorama: a partir de referências numéricas projetadas durante o filme, o espectador podia sentir o “cheiro” das cenas raspando o número correspondente no cartão. Os odores eram dos piores: fezes, inseticida, suor, etc. Mesmo sendo mais “comercial” desde então, seu cinema permaneceu autêntico e até mais absurdo que antes, pois ele passou a estilizar o trash para o bom gosto, deixando-o “bonitinho”, deglutível - criando assim uma atmosfera fílmica ainda mais nonsense por detrás das aparências do american way of life.

E ainda que critique este modo de vida, seu cinema é totalmente norte-americano, tal como ele, que nasceu e ainda vive em Baltimore, cidade de classe média do estado de Maryland, costa leste dos EUA. Em sua dogville ele projeta uma cidade freak, muito influenciada pelo estilo dos filmes B dos anos de 1950 e 1960: os horror movies e os sexploitation. Estas marcas já aparecem desde seus curtas-metragens iniciais, produzidos nos anos sessenta com pouco dinheiro e só seus amigos no elenco: Hag in a Black Leather Jacket (Bruxa em jaqueta de couro preta, 1964, 8mm), Roman Candles (1966, 8mm) e Eat Your Makeup (Coma Sua Maquiagem, 1968, 16mm). Seu primeiro longa-metragem foi Mondo Trasho (1969), dirigido quando tinha 24 anos e apenas o orçamento de 2 mil dólares emprestados pelo pai.

Nos anos seguintes dirigiu The Diane Linkletter Story (1969), Multiple Maniacs (1970), Pink Flamingos (1972), Problemas femininos (Female Trouble, 1975), Desperate Living (1977), Polyester (1981), Hairspray (1988) – que lhe deu fama mundial e foi recentemente refilmado nos EUA com o ator John Travolta no lugar de Divine como protagonista. Nos anos noventa seguiram algumas produções medianas, sem muito frisson cinematográfico: Cry-Baby (1990), Mamãe é de Morte (Serial Mom, 1994), O Preço da Fama (Pecker, 1998), Cecil Bem Demente (Cecil B. Demented, 2000) e Clube dos Pervertidos (A Dirty Shame, 2004).

Hoje, com a filmografia inteira disponível no mercado, em ótimos DVDs cheios de extras, Waters é levado à altura de indie e cult. Um tanto compreensível dentro da lógica do mercado audiovisual recente. Pois se até o final dos anos de 1970 ele era trash por indefinição, ou por realmente estar fora de qualquer raciocínio cinematográfico da época, agora justamente o “ultrajante, escatológico e bizarro” ganha o status de “alternativo” e “moderno”. Tanto que ele foi homenageado no Festival de Berlim, em 2006, com This filthy world ("Este mundo imundo"), documentário de Jeff Garlin sobre a carreira singular do cineasta, além de detalhes engraçados de sua vida privada. Em fase de produção, ele filma no momento Fruitcake com os atores Parker Posey e Johnny Knoxville no elenco. Na trama, o garoto “Fruitcake” foge de casa durante uma festa de fim de ano depois que seus pais são surpreendidos roubando carne. No caminho ele conhece uma garota criada por um casal gay que está em busca de sua legítima mãe.

Como um rebelde adolescente, ou um festeiro numa cidade conservadora, ou mesmo um lunático num mundo enraivecido, Waters projeta um cinema do prazer, de celebração e subversão da vida, através do humor e da histeria. Certamente um cinema moderno sem John Waters seria bem mais chato e conservador. E, mesmo com filmes irregulares e trashs, seu estilo influenciou cineastas de prestígio como Pedro Almodóvar, Jim Jarmush e Todd Solondz. Assim como seu fino bigode, mantido desde os anos de 1970, seu cinema é autêntico, brega, moderno e glam: postiço e outsider às convenções e aos modismos sociais.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O cinema sádico de Michael Haneke

Ao lado de Lars Von Trier e dos Irmãos Dardenne, o austríaco Michael Haneke é um dos cineastas mais polêmicos da atualidade. Obcecado pelas neuroses e sociopatias contemporâneas, seu cinema-limite aposta em narrativas densas e enredos mórbidos, sem finais felizes.

Fascinado pelos demônios da mente humana, Haneke estudou Filosofia e Psicologia na Universidade de Viena, antes mesmo de seduzir-se pelo cinema, embora muito influenciado pelo gosto artístico da família: a mãe era atriz e o pai diretor. Debutou-se inicialmente no teatro, como dramaturgo e, em seguida, foi trabalhar na televisão alemã como diretor, editor e roteirista. Sua estréia na direção deu-se em 1973 com o experimento After Liverpool, mas seu primeiro longa-metragem de fato foi O Sétimo Continente (1988), filme depressivo sobre uma família que comete suicídio. As produções seguintes foram aos poucos reiterando seu cinema sádico e voyeurístico: O Vídeo de Benny (1992), 71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso (1994) e principalmente Violência Gratuita (1997) – que alcançou repercussão no circuito indie e até nos blockbusters depois que foi refilmado em 2008, nos Estados Unidos, pelo próprio Haneke, com elenco formado por Naomi Watts, Tim Roth e Michael Pitt.

Funny Games, título original de Violência Gratuita, logo se tornou cult por tratar da violência simbólica/física sem ser sanguinolento ou vazio, embora o titulo brasileiro trouxesse certa alusão a isso. O absurdo (e a tese do filme) aparece quando um dos personagens questiona o sadismo do espectador ao retroceder o próprio filme com um controle remoto apontado para a tela. Mais coeso foi Código Desconhecido (2000), ensaio sobre a alteridade e os códigos que regem as relações sociais num mundo moralista, xenófobo e individualista. A cena inicial com Juliette Binoche deflagrando uma situação ‘normal’ que explode em violência é uma das melhores. Em 2003 Haneke fez Tempos de Lobo: Isabelle Huppert e Olivier Gourmet formam um casal de férias no campo que, junto aos filhos, são torturados por uma outra família que já está no local. Novamente, o inferno se instala.

Embora com uma pequena filmografia autoral de mérito nos anos noventa, o reconhecimento de Haneke no cinema mainstream deu-se mesmo com A Professora de Piano (2001), adaptação do romance de Elfriede Jelineck, escritora premiada com o Nobel de Literatura. Os protagonistas Isabelle Huppert e Benoit Magimel ganharam o prêmio de melhor atriz/ator no Festival de Cannes daquele ano. Huppert vive uma professora clássica, altiva e elegantemente fria em sua postura esguia e olhar compenetrado. Apaixonado por um estudante exemplar, ela busca através do sadismo a redenção para o frisson erótico da paixão. Passa a vivenciar situações de risco: freqüenta cabines peep show, espia casais em drive-in, compra revistas e artifícios eróticos em sex shops, mutila-se no banheiro e, vez em quando, mantém uma relação doentia e erotizada com a mãe. Logo seu jogo de fetiches revela-se um jogo de poder onde a perversão volta-se contra ela, machucando-se até a cena final, uma das mais cruéis e solitárias do cinema moderno.

Com menor impacto das imagens, porém com maior elaboração textual, Haneke fez, em 2005, Caché. No elenco, Binoche e Daniel Auteuil protagonizam um casal de intelectuais que tem o cotidiano abalado por estranhas fitas de vídeo deixadas em frente à casa onde moram. Outro filme que discute o status da imagem, o quão ela é verdadeira ou fictícia e como ela pode ser manipulada.

Em maio de 2009, Haneke foi aclamado em Cannes com a Palma de Ouro de melhor filme por A Fita Branca, seu trabalho mais complexo em termos estéticos e ideológicos. Com fotografia P/B, o longa versa sobre as raízes do mal numa aldeia alemã às vésperas da I Guerra Mundial onde o mais sinistro ocorre: tortura, suicídio, devastação moral e crimes – e tudo sob a ótica das crianças - o que nos leva a desconfiar da suposta ‘inocência’ delas. E também de todos. Pois para Haneke o ovo da serpente está em todo lugar, camuflado nos detalhes, muito além das boas aparências e dos prazeres efêmeros.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Cinema maldito

Filmes cruéis, agressivos e incômodos. Polêmicos em sua época, muitos deles censurados. Cinema-limítrofe que nos deixa boquiabertos. Todos malditos. Protagonistas da história estética e moral do cinema.

Um cão Andaluz (de Luis Buñuel e Salvador Dalí /1928)
Freaks (de Todd Browing /1932)
Persona (Ingmar Bergman / 1966)
O Bebê de Rosemary (Roman Polanski / 1968)
Pink Flamingus (de John Waters / 1972)
O Último Tango em Paris (de Bernardo Bertolucci / 1972)
A Comilança (Marco Ferreri / 1973)
Sweet Movie (Dusan Makavejev / 1974)
Saló ou os 120 dias de Sodoma (Pasolini/1975)
O Império dos sentidos (Nagisa Oshima / 1976)
Laranja Mecânica (Stanley Kubrick/1978)
Táxi Driver (Martin Scorsese/1978)
Je vous salue Marie (de Jean Luc Godard / 1985)
Não Matarás (Krzysztof Kieslowski / 1988)
O Bebê Santo de Macon (Peter Greenaway / 1993)
Crash – Estranhos Prazeres (de David Cronenberg /1995)
A Professora de Piano (Michael Haneke / 2001)
O AntiCristo (Lars von Trier / 2009)

sábado, 29 de maio de 2010

Blue Movie Trash

Em 1972, enquanto Woody Allen respondia Tudo o que você queria saber sobre sexo, mas nunca teve coragem de perguntar, a frígida Linda Lovelace descobria outras vantagens de sua estranha sexualidade em Garganta Profunda, mítico filme de Gerald Damiano. O curioso neste blue movie, além do tema bizarro (a moça possuir o clitóris na garganta), foi a maneira irreverente como abordou a pornografia. Apresentado como pornô soft (ou seja, “com história”), ele misturou drama, comédia, músicas pop e cenas trash – tudo para estilizar e comercializar a pornografia. Apesar disso, o filme assemelhou-se a qualquer outro do gênero: restrito ao sexo explícito, obcecado pelos closes genitais e pouco inventivo quanto ao erotismo das personagens.

De todo modo, o drama sexual da senhorita Lovelace fez com que o público lotasse as salas de cinema para acompanhá-la em sua “cura”. Rapidamente o filme adquiriu certo ar cult fazendo fama entre cinéfilos, artistas (de Jack Nicholson a Truman Capote), cineastas (de John Waters a Mike Nichols), jovens e mulheres. O sucesso foi absurdo; o lucro mais surreal ainda.

Filmado em seis dias e com o custo de 24 mil dólares, nos EUA ele arrecadou 20 milhões; no mundo inteiro esse valor beirou os 600 milhões. Nunca um filme pornográfico lucrou tanto. Os vetos e as proibições só ajudaram a granjear mais fama. O então Presidente Richard Nixon o proibiu em 23 estados. De nada adiantou. O sucesso foi tanto que a revista Variety classificou-o como o Ben-Hur pornográfico; o presidente da Paramount, Frank Yablans, considerou-o O Poderoso Chefão do cinema erótico. Um exagero, evidente. Outros filmes não-pornográficos do mesmo ano também abordaram a sexualidade e o erotismo de maneira muito mais interessante e subversiva. Bertolucci trancafiou um casal entre quatro paredes em Ultimo tango em Paris; John Waters radicalizou as convenções sexuais em Pink Flamingos; Pasolini exaltou o corpo do povo em Decameron; Kubrick associou sexo e violência em sua Laranja Mecânica; e até o bem comportado Antonioni realizou uma cena de orgia em Zabrisnkie Point, e por aí vai...

Em 2008, o Festival de Cinema do Rio exibiu Por dentro da Garganta Profunda, documentário de Fenton Bailey e Randy Barbato que registrou os bastidores e o frisson do filme na mentalidade da época. Hoje, depois de 36 anos de sua estréia, com o advento da internet, da pirataria e da massificação do erotismo, Garganta Profunda parece mais uma piada tosca e sem graça do que um libelo subversivo da sexualidade dos outsiders.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Pílulas de cinema nacional

Mais experimental e ousada, parte da cinematografia nacional pós-retomada tem demonstrado fôlego em produções inventivas que saem da mesmice e subvertem o politicamente correto.

VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO é o novo filme de Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) e Karim Aïnouz (Madame Satã, O Céu de Suely e Alice). Com imagens fragmentadas e fotografias dispersas, o longa mostra a história de José Renato, geólogo que parte para o Sertão nordestino para uma pesquisa de campo. Como em todo road-movie, no decorrer da viagem as paisagens refletem os sentimentos do protagonista: o isolamento, a frustração, o vazio e a sensação de desamparo. Saudoso de um amor passado, ele segue viagem. Em cada esquina fica uma lágrima, uma saudade, ou quem sabe um novo amor. Um belo recorte emotivo sobre o nordeste. Aquele bem árido, dentro da gente.

OS FAMOSOS E OS DUENDES DA MORTE foi feito pelo mesmo diretor do hit Tapa Na Pantera. Mas esqueça o hilário curta-metragem, pois este primeiro longa de Esmir Filho é seu oposto. Temos a realidade pacata de um pequeno vilarejo de colonização alemã do sul do Brasil onde quase nada acontece. Lá as pessoas sonham em segredo. Tal como um garoto de 16 anos, fã de Bob Dylan, que acessa o mundo através da internet. Por um blog ele conhece uma figura misteriosa que o faz mergulhar em um mundo metafísico cheio de reminiscências de Gus Van Sant.

AS MELHORES COISAS DO MUNDO tem a cara de Laís Bodanski. A diretora, que já fez Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade, agora marca estilo com sua sutil crítica ao cotidiano e aos tormentos dos jovens e adolescentes. Tudo nele é tão natural que às vezes parece que Laís flagrou os personagens diante de situações conflituosas: depressão, homossexualidade, frustração amorosa, divórcio dos pais, namoro, etc. E até parece que ele é filme-irmão-tupiniquim de Entre os Muros da Escola, produção francesa recente que fala sobre dilemas transversais.

O AMOR SEGUNDO B. SCHIANBERG tem tom de reality show, mas é um filme processual que embaralha cinema e videoarte numa trama sobre a construção do amor a partir do confinamento de um casal entre quatro paredes. Mesclando realidade e ficção, o filme traz ironia às relações afetivas: o quão elas podem ser encenadas, elaboradas? Mais um trabalho ousado do diretor Beto Brant, que já nos surpreendeu com Crime Delicado e O Invasor.